Tem histórias que começam com um sonho.
A nossa começou com uma dor.
Em 2020, meu pai, Gilmar Gomes – um homem cheio de saúde, energia e planos – recebeu um diagnóstico de câncer no rim. Seis meses depois, ele partiu. Tinha apenas 64 anos.
Até pouco tempo antes disso, ele estava ali: sorrindo, falando do mar, planejando a próxima aventura. Entre seus passeios preferidos estavam a Ilha do Mel e a Baía de Antonina. Esses lugares não eram apenas pontos no mapa para ele; eram quase extensões da própria alma.
Ele amava a água.
Amava remar sem pressa.
Amava os barulhos do mar, o silêncio entre uma onda e outra, o tempo que parecia desacelerar cada vez que ele subia no caiaque.
O dia em que o caiaque virou abraço
Depois que ele se foi, eu fui até o caiaque dele.
O Solar laranja.
Peguei aquele caiaque que já tinha tantas histórias com ele e me coloquei na Baía de Antonina sem rumo definido. Não era um passeio. Era um desabafo.
Só eu, o caiaque, a água… e um coração apertado, carregando uma saudade que parecia não caber no peito.
Remei por muito tempo.
Cada remada era uma lembrança.
Cada respingo de água, um flash das nossas conversas, risadas e silêncios.
Até que encontrei um lugar.
O céu estava limpo.
Na minha frente, imponente, estava a Serra do Ibitiraquire: grandiosa, verde, cheia de contrastes. A água refletia tudo como um espelho – a calmaria tradicional da Baía de Antonina, como se o tempo tivesse desacelerado só para eu poder respirar.
Ali, naquele cenário quase surreal de tão bonito, algo dentro de mim se aquietou.
Naquele instante, eu entendi por que ele amava tanto estar ali.
Não era só sobre remar.
Era sobre pertencer.
Quando a dor vira propósito
Depois desse dia, comecei a levar amigos para conhecer aquele ponto da baía.
Um por um. Às vezes em grupo.
E acontecia sempre a mesma coisa: todos ficavam encantados.
Todos sentiam algo diferente naquele lugar.
Era como se a baía abraçasse cada pessoa que chegava.
Um dia, levei o Wagner, amigo de infância e, hoje, meu sócio.
Entre uma remada e outra, cercados pela paisagem que já fazia parte da minha cura, surgiu a pergunta que mudou tudo:
Por que não mostrar essa Antonina para mais pessoas?
Por que não transformar aquele sentimento em experiência?
Mas sabíamos que precisava ser do nosso jeito:
– Verdadeiro.
– Com propósito.
– Diferente de tudo o que já tinham feito em Antonina.
Foi ali, sobre a água, que nasceu a ideia que daria origem à Antonina Adventure.
O caiaque laranja que nunca aposentou
Quando chegou a hora de comprar os caiaques para começar o negócio, a decisão foi quase automática.
Já existia o Solar laranja do meu pai.
Ele era o nosso ponto de partida, nossa referência, nosso símbolo.
Então decidimos que todos os caiaques seriam iguais ao dele.
Laranja, modelo Solar.
Tudo padrão “como a IPPLE”, a gente brincava, rsrsrs…
Na prática, era muito mais que uma escolha de modelo.
Era a nossa forma de eternizar o amor que ele tinha pelo mar.
Nossa homenagem silenciosa.
Hoje, quem passeia com a Antonina Adventure no Vale do Gigante rema em um caiaque laranja – o mesmo modelo que meu pai usou para explorar cada canto da Baía de Antonina.
E, às vezes, sem nem perceber, o participante está usando o próprio caiaque dele.
Sim, o caiaque do meu pai está ali, misturado entre os outros, pronto para continuar a fazer o que sempre fez: navegar.
Ele se foi.
Mas o caiaque continua.
Continua cortando as águas da Baía de Antonina.
Continua levando histórias.
Continua se aventurando.
Muito além de um passeio: um jeito de devolver ao mundo
Hoje, na Antonina Adventure, a gente acredita que todo mundo merece sentir essa paz, essa liberdade e essa beleza que meu pai sentia quando estava remando.
Por isso, pessoas com diagnóstico de câncer ou algum tipo de deficiência fazem o passeio gratuitamente com a gente.
Não é marketing, não é estratégia, não é favor.
É devolução.
É a nossa forma de retribuir para o mundo um pouco do amor que ele tinha pela vida – e pela água.
Cada pessoa que entra em um caiaque laranja com a gente ganha mais do que um passeio:
– ganha um momento de conexão consigo mesma,
– com a natureza,
– e, de algum jeito, com a história que deu origem a tudo isso.
O significado do laranja
O caiaque é Solar. E é laranja.
Não por acaso.
Ele carrega uma história.
Carrega um nome.
Carrega memórias que ainda fazem meus olhos marejarem no fim da tarde.
Até hoje, nos nossos passeios clássicos no Vale do Gigante, quando fico por último, pilotando o drone para registrar o pessoal remando, rindo, se emocionando…
lá pelas tantas, sem perceber, uma lágrima de saudade ainda insiste em cair.
É como se, em cada pôr do sol refletido na água, ele estivesse ali, remando junto.
Em memória de Gilmar Gomes.

Um dia, nos veremos outra vez.
Enquanto isso, o caiaque laranja segue fazendo o que sempre fez:
levando amor pela baía, pela vida e pelo simples ato de estar sobre a água.


Eu lembro de cada detalhe. Do antes, do durante e principalmente do depois, ele deixou muitas saudades, dessas que apertam o peito de verdade. Mas deixou também algo maior que a dor: um legado de caráter, de amor e de força que continua vivo em cada pessoa que teve o privilégio de conviver com ele.
Ate breve Croscodalho